Publicado por: palavrapuxapalavra | Junho 27, 2008

Como o moribundo encara a morte?

Como os “moribundos” encaram a morte?

Falar em morte é falar em controvérsias, pois este assunto reúne inúmeras investigações que têm como objectivo comprovar a teoria que os seus autores defendem. Por estas razões o tema que está em análise suscita dúvidas e levanta questões que podem não ser possíveis de responder.

As dúvidas sobre o que é de facto a morte não são de hoje, segundo o pensamento de Platão (399 a.C./2001) a morte exclui a duplicidade, isto é, não pode ser um bem para uns e um mal para outros, mas sempre um bem independentemente de qualquer circunstância, assim, a morte não é senão a separação entre o corpo (real) e a alma (metafísica).

Segundo o Professor Doutor Daniel Serrão “Com a morte de cada homem termina um universo cultural específico, mais ou menos rico mas sempre original e irrepetível”, porém a definição de morte em termos técnicos é um ponto de discordância entre a classe médica, pois se para uns sucede aquando da morte cortical, para outros serve de referência a morte cervical, contudo, seja qual for a situação ela não é fácil de encarar.

Vários são os autores que nos apresentam razões para serem os idosos a população mais exposta à meditação sobre a morte.

Roger Fontaine (2000) defende que estes factos decorrem devido a dois factores, primeiramente porque estão conscientes de que o médico a qualquer instante lhes pode diagnosticar uma enfermidade sem cura e depois porque começam a assistir ao falecimento dos que lhe estão próximos (Fontaine, 2000).

Segundo Vilhena (2006/2007) a morte é um fenómeno biopsicossociocultural e o contacto com ela consciencializa-nos “do carácter limitativo da vida (Vilhena, 2006/2007:75) por esta razão considera ser perceptível o porquê de serem os idosos a pensar mais na morte, recorrendo a expressões como”quem já andou já não tem para andar” (Vilhena, 2006/2007:75). Esta autora fala-nos ainda dos sentidos que os idosos podem atribuir à morte, isto é, a forma como cada idoso a vai encarar pode variar entre dois grandes denominadores o sentido positivo e o negativo. Os idosos que encaram a morte de forma positiva têm-na como Amiga, Mestra, uma ponte para a aventura, ou seja o reencontro com os que já “partiram”, pode ainda ser vista como recompensa. O sentido negativo representa sentimentos pela morte como o fim, nada, castigo, separação (dos entes queridos) ou segundo Vilhena (2006/2007:75) “uma maneira de obrigar os outros a preocuparem-se comigo” surgindo deste último o suicídio no idoso.

Assim sendo, Macedo (2004:10) propõe uma aprendizagem para a morte, pois considera que “a morte como acontecimento da vida passou do domínio familiar para o domínio dos técnicos de saúde”. A «tradição» que outrora vigorava, em que as pessoas passavam os seus últimos instantes rodeados da família e do seu amor no seio do seu lar, nos tempos que correm é pouco comum acontecer, pois actualmente a morte sucede mais frequentemente em ambiente hospitalar e na maioria dos casos sem a presença da família.

Sobre este assunto, Roger Fontaine (2000) fala-nos dos tabus existentes, até à década de 60, em torno do estudo do moribundo, surgindo por isso a tanatologia, disciplina que colmatou essa lacuna da psicologia e foi auxilio de grande valor na “elaboração de programas de formação das equipas de cuidados que fazem o acompanhamento da morte” (Fontaine, 2000:175).

Macedo (2004) na sua tese cobre Kluber-Ross e a necessidade de uma educação para a morte, explicita quais os objectivos desta psiquiatra ao efectuar uma investigação junto dos moribundos e das suas famílias e descreve quais os resultados obtidos nessa investigação.

Assim, após a realização de uma investigação exaustiva em casos de moribundos e das suas famílias Kluber-Ross identifica cinco fases após o conhecimento de que a vida começa a escassear, sendo elas a negação, a raiva, a negociação, a depressão e a aceitação.

A primeira fase é conhecido como negação e caracteriza-se pela “anulação” da informação, trata-se um mecanismo de defesa, em que face a uma morte eminente o indivíduo recusa o acesso à informação recebida.

Após este choque inicial, é chegada a fase da cólera ou raiva, em que o indivíduo tem sentimentos de revolta questionando-se o porque de ser “o escolhido”, para Kluber-Ross a solução para que esta fase seja ultrapassada, passa pela promoção da tolerância no doente e pelo desenvolvimento da escuta por parte dos que o assistem.

Posteriormente chega a fase da negociação, nesta fase o indivíduo tenta, como o próprio nome indica, negociar com entidades divinas o prolongamento da sua vida, efectuando para isso promessas. Todas as fases têm implícita uma réstia esperança, esta é a fase essa mesma esperança está mais visível.

Quando já não consegue negar a doença, pode ocorrer a fase da depressão, contudo existem dois tipos de depressão:

· Depressão reactiva, se o doente manifestar preocupações com os que anteriormente estavam dependentes de si. Neste caso será essencial transmitir ao doente animo e coragem apontando para resolução do problema, contudo Macedo (2004) chama a atenção para o facto do problema não poder ser resolvido, na integra, por um psicólogo e que Kluber-Ross terá, provavelmente, recorrido a uma assistente social ou qualquer outro profissional da área para dar resposta aos problemas sociais do doente.

· Depressão preparatória ocorre quando o indivíduo se prepara para enfrentar a morte e “para a perda do que mais ama na vida” (Macedo, 2004: 85). Este tipo de depressão pode ser imprescindível para chegar à aceitação.

Todavia a família também pode ter dificuldades em aceitar esta situação em que o doente se encontra, aí compete à equipa que está a seguir a situação auxiliar a família e prepara-la para que possa apoiar o doente nesta jornada.

A aceitação é a fase que se segue e para além de ser a ultima é a mais curta, pois decorre pouco antes do término da vida do doente. Esta fase é descrita como o culminar de uma batalha. Segundo Kluber-Ross o doente encontrar-se-á “tired and, in most cases, quite weak. He will also have a need to doze off or to sleep often in brief intervals […]. This is not a sleep of avoidance or a period of rest to get relief from pain, discomfort, or itching. It is a gradually increasing need to extend the hours of sleep very similar to that of the newborn child but in the reverse order” (Kluber-Ross, 1969 como citado em Macedo, 2004: 86)

Embora Kluber-Ross tenha efectuado um trabalho notável, foi alvo de criticas quer no que diz respeito à análise das emoções quer devido às suas investidas na vertente mística que constitui a vida para além da morte (Macedo, 2004).

Fontaine (2000), fala-nos ainda da controvérsia existente entre Kuber-Ross e Pattinson, no que diz respeito à determinação da reacção por parte das pessoas aquando a noticia de que o final da sua vida está próximo. “ Pattinson (1977) prefere um modelo comtrês fases: uma fase de crise aguda, uma fase crónica de sentimentos ambivalentes e uma fase terminal” (Fontaine, 2000:177). A primeira fase proposta por este autor engloba a primeira e segunda fases propostas por Kluber-Ross, em que é característico o aumento do stress. A segunda fase, ou fase crónica é equivalente às descritas por Kluber-Ross como sendo a fase da negociação e da depressão. Por fim a aceitação, considerada pelos dois autores como a fase final (Fontaine, 2000).

Vilhena (2006/2007), elucida-nos sobre os sentidos atribuídos pelos idosos à morte, Macedo (2004) parafraseando Kluber-Ross, descreve os processos pelos quais passam os moribundos após a noticia da sua morte, Fontaine (2000) confronta as investigações de Pattinson e Kluber-Ross, contudo nenhum deles nos fala acerca da avaliação da personalidade de cada individuo que entrou nos seus estudos.

A personalidade não seria um indicador pertinente para uma melhor compreensão e avaliação?

Havighurst, após a realização de diversas pesquisas, sugere que o indivíduo deve concretizar diversas tarefas desenvolvimentais para atingir o êxito (Witter, 2006)

Este não seria um factor a ter em conta?

O sentimento de cumprimento ou incumprimento das tarefas desenvolvimentais terá influência na forma como o indivíduo encara a morte?

Considerações finais

Em conclusão, quanto maior for o sentido atribuído à vida, menor será o medo de morrer (Vilhena, 2006/2007). No mesmo sentido Gomes (2006/2007:79) parafraseando Einstein ”diz que o prazer da vida é descobrir os seus mistérios”.

Muitos são os autores que nos falam da necessidade de uma aprendizagem para a morte, entre eles podemos encontrar Macedo (2004) que nos refere a existência desta disciplina como parte do currículo das crianças da pré-escola em escolas americanas. O mesmo expõe Witter (2006) ao relatar a carência de uma educação para o envelhecimento.

Referências Bibliográficas

· Fontaine, Roger (2000). Psicologia do Envelhecimento. Lisboa. CLIMEPSI Editora

· Gomes, I.H. (2006/2007 Dezembro -Maio). Pensar a morte, Revista transdisciplinar de Gerontologia. Universidade sénior contemporânea editora

· Macedo, J. (2004). A necessidade de uma educação para a morte. Tese de mestrado não publicada, Universidade do Minho, Braga.

· Platão, (2001). Fédon. Lisboa: Editora Lisboa (Obra original de 399 a.C.).

· Serrão Daniel (retirado em 12/05/2008 de www.danielserrao.com

· Vilhena, V. (2006/2007 Dezembro -Maio). Pensar a morte, Revista transdisciplinar de Gerontologia. Universidade sénior contemporânea editora

· Witter, Geraldina P (2006 Janeiro -Março). Tarefas de desenvolvimento do adulto e do idoso, Estudos de Psicologia. Campinas

Publicado por: palavrapuxapalavra | Junho 11, 2008

Poesia

Tudo o que faço ou medito

fica sempre pela metade,

querendo quero o infinito,

fazendo, nada é verdade.

Fernando Pessoa

Publicado por: palavrapuxapalavra | Junho 11, 2008

Olá a todos..

Este texto é para vós….

Categorias